07/08/09

Pobre Madalena

- Madaleeeeeeena! O almoço já tá pronto, não demora. Olha menina... A louça vai sobrar pra você.

Madalena é menina-moça, sem muito detalhe e sem muita explicação. Sempre arrependida e na hora errada.
Ah Madalena! Uma “pimenta doce”, que não suporta ter calos pisados.
Anda pelos cantos, esbaforida... Perdida... Longe que só ela!
Vive rápido...ela é bem perecível!
Avisei minha filha Madalena, pra ela crescer, tomar tento e banho. Ser sua dona.
Falei pra que ela não teime em ser feliz, mas ela insiste em procurar ventura em cada canto dessa casa com pó mal tirado.
Essa menina, que é quase como as outras, anda por ai requentando paixão, chamando de volta quem a vida cansou de expulsar do seu caminho.
Já avisei Madalena, mas ela não me escuta. Madalena é boba,vai se casar por amor. Os moços da sua idade são amores só porque estarão mortos no seu presente e vivos na lembrança. Embora ela não saiba, eu a conheço muito bem. Já posso prever seu destino. Ah se eu pudesse mudá-lo.
Mas conheço o fruto do meu ventre, como a palma de minha mão. Madalena até sabe, das razões quando digo tudo isso.
Ô Madalena minha filha! , acorda pra vida. Dê uma porrada na mesmice, volte pra Terra e mostre suas pernas. Madalena não é só um nome, é um modo de ser. Queria eu não ser mais.
Bem conheço Madalena.

09/07/09

Ah,eu quero é saúde!

Quando eu resolvi guardar meus ursinhos de pelúcia, veio minha mãe com a primeira boneca de pano da minha vida (eu amei,mesmo com dezenove anos),esta me lembra que, doçura,carinho e proteção precisam estar sempre em cima da minha cama.
A verdade é que não gosto de fazer aniversário, gosto é de ser amada e de ter saúde,e honestamente não me sinto muito à vontade em fazer vinte anos, tenho o sério receio de ficar velha - não de envelhecer. Além do mais, um dos meus medos é o de ficar amarga.Já viu como as pessoas amargas são terrenas,cruéis e cansam os olhos e a cabeça?Pois é. Borro de medo de ficar dura com o passar das primaveras. Para muitos esse processo de endurecimento pessoal, é inevitável, não são todos que conseguem cicatrizar as chicotadas do mundo. E eu notei.Meus amigos ficaram mais sérios.Eu fiquei mais séria.Passei uma semana remoendo,se isso era ilusório ou não.Cheguei a conclusão que não era mais um espasmo individual -tive susto,revolta,solidão e saudade.Foi então que eu decidi,jogar o saudosismo do lado e partir para conclusões reais.Cheguei perto de encontra-las ,e no meu dossiê,conclui que nem sempre falta de humor,é seriedade,pode ser preocupação. Silêncio não é vazio de expressão/expressividade, pode ser cautela ou medo do ridículo.Rigidez não é prepotência ou autoritarismo, talvez é necessidade de ocasião.È lógico que em dose exagerada remédio é veneno.
Me acalmei ao pensar que retirar ideais de romantismo,perfeição e felicidade completa são coisas necessárias,viver no mundo real,crescer, exige posturas: menos idealizadas e de constante estado de alegria,e sorriso pra todos os lados.O mundo,a vida,as coisas não são um concurso de beleza,cujo desejo próprio e principal é "a paz mundial".Não há quem viva sossegada, só na sombra,bebendo água fresca.
Sei que meu nascimento não coincide com nenhuma data histórica, nem com o nascimento de algum rei. Mas em duas décadas de existência não posso dizer que não presenciei coisas interessantíssimas e fatos históricos, pois até vi o Michael Jackson morrer e fui ao show da Rita Lee (o que é indissociável do meu 2.0).
Está frio, cama está desarrumada, a mala está ao meu lado,as fotos na parede, a boneca ali no canto, e do lado de fora do concreto, uma cidade inteira me esperando.Então eu sei,"porque eu nasci pra saber",que é preciso tatuar doçura na pele,chorar quando necessário,porque dúvidas,medo e crises vou ter todos os anos, e quando estiver o dobro da minha idade,provavelmente estarei na crise dos quarenta,”mas enquanto estiver viva,cheia de graça,talvez ainda faça um monte de gente feliz,Uh uh,uh”.

23/06/09

“Respeitável público”, com vocês Rita linda!


Foi caro, foi raro, foi único, foi um arraso. O “Multishow Rita Lee”, no Teatro Marista nessa última sexta-feira, durou aproximadamente uma hora e quarenta minutos e contou com telões de alta definição e da mais elevada originalidade. O show começou com a conhecida música “Flagra” e encerou com “Erva venenosa”.Nesse espaço de tempo a cantora até poderia ser mais original,mas não teria como,inclusive o bom e velho rock and roll foi indispensável,já que a cantora não deixou Chuck Berry de fora do seu inofensivo repertório.
Particularmente o show teve vários ápices, mas para a alegria da comunidade maringaense ,um dos momentos mais celebrados foi quando,em tom de humor, a roqueira cantou “Maringá,Maringá”.
A platéia (aparentemente) “Cult”, do Teatro Marista não pode se queixar de falta de interação por parte da cantora, que por modismos televisivos apresentou sua banda como “Os Dalits”, e até contou sobre o capítulo da novela “Caminho das Índias”. “Are Baba!”foi o dialeto usado pela cantora de modo intensamente humorístico. Dando um pulo da Índia para o Japão, antes de cantar O bode e a Cabra - versão de “I Wanna Hold your hand” dos Beatles, a mutante aproveitou para mandar (gentilmente) Yoko Ono se fuder, já que a viúva de Lenon demorou oito anos para liberar a versão brasileira.
Coisa notável eram os olhos da cantora, que não passavam despercebidos, reluziam em cima do palco de modo vibrante- assim como as cores psicodélicas de suas roupas. O cabelo (menos) vermelho que de costume foi motivo de irreverência; diz ela que errou na tinta.
A cantora matou a sede de uma Maringá que pedia algo “não-sertanejo” e fez a platéia beber quente – como um licor (um pouco salgado) - o rock brasileiro na sua melhor boa forma. Cada centavo pago por esse show foi tão válido, que se necessário rasparia toda minha poupança novamente. Ela é singular, ela é diva, ela é irreverente, maravilhosa, contemporaneamente velha, louca, linda, essa ovelha de quem falo Senhores! , é a senhora sua tia, Rita Lee Jones.

13/06/09

Deixa pra lá

Quando ando de salto,lembro dos meus chinelos.
Quando saiu de casa,lembro do pão quente.
Quando deixo quem é importante,sinto saudade.
E quando eu penso em amor,eu deixo baixo.
Paixão é tudo que eu deixo.

04/03/09

Adultos-MAIAKÓVSKI,

Desabotoado, o coração quase de fora,

abria-me ao sol e aos jatos de água.

Entrai com vossas paixões!

Galgai-me com vossos amores!

Doravante não sou mais dono de meu coração!

Nos demais - eu sei,

qualquer um o sabe -

O coração tem domicílio

no peito.

Comigo

a anatomia ficou louca.

Sou todo coração -

em todas as partes palpita.

25/02/09



Minha amiga Maira me mostrou a foto ao lado e eu tive que compartilhar essa imagem com vocês.Este é o bolo que Zeca Pagodinho recebeu para comemorar seus 50 anos (de pura cerveja e pagode).No bolo,votos desejados ao aniversariante.O que achei mais criativo foi “charme”,”classe” e “paquera”.Temos que concordar que paquera é imprescindível,classe então nem se fala.
Mas o que me chamou muito a atenção foram as palavras : “harmônia” e “sorisso”.Pois é, minha gente,depois que vi essa foto entrei em um conflito existencial – e até cultural.”Harmônia” pode ser um novo tipo de excreção,gás,hormônio ou então uma molécula responsável por alguma situação metabólica.E eu nem sabia.Poxa,e “sorisso”,caramba! Essa reforma ortográfica ...Até onde eu sabia,as mudanças seriam poucas,sabia dos hífens e afins.Agora tal palavra tão modificada...por essa eu não esperava.Francamente viu.
O garoto (“sorisso”) da Brahma ,fez anos o azar é só dele. Ele que fez aniversário e quem ganhou o presente foi eu(nós), agora estamos culturalmente abastecidos.Êta mundinho bom,”deixa a vida me levar,vida leva eu”.

19/02/09

Coisa de cinema

Ela esperou uma semana para que o calor das coisas tivesse atingido a temperatura natural da passividade. Em leve retro, recordou que uma voz lhe dizia para que não passasse da hora,nem da conta, matasse a vontade.A outra voz gritava para que os bons costumes fossem zelados. Que não perdesse a compostura e a pose de boa moça.
Deu voz à aquela que menos tinha ouvido no decorrer dos anos.Para ela não era fácil deixar (a segunda voz),a menina dos olhos de suas convicções.Sua fiel companheira, que evitou o abismo do seu corpo. Mas já era a hora. Passava da hora! Era tempo de colocar novas roupas. Em quatro frações de segundos,optou pela voz que mandava ela se despojar no contorno de suas vontades.Assim,deu aval à tecnologia,mandou recado para que ele a esperasse,naquele encontro,na hora X,raramente o veria de novo.Era a oportunidade de deixar a sensação de coisas não realizadas,para trás.
A voz que pedia para que ela se reprimisse, gritava. Mas o desejo que pulsava era bem maior. Ele afogou todas as vozes.
Foi assim que ela o viu naquele cinema. No começo a luz não fazia com que eles se encontrassem, a timidez e a insensatez eram maiores, não existiam palavras cabíveis ára aquele momento.Ele fugia com o olhar,ela disfarçava,desconcertadamente .Movimentos valem muito mais do que palavras,quando o que move é único e exclusivamente a vontade.
Foi então, que as luzes foram apagadas. Do lado de fora existia um mundo que não ouvia nosso barulho,pessoas incapazes de me enxergar naquele instante,o que existia era a vontade de conhecer um lugar poucas vezes visitado.Ela só conseguia sentir o gosto inédito do beijo,arrepiando cada parte do seu corpo,de suas veias.Era algo demasiadamente descompromissado e espontâneo,biológico,contemporâneo e natural.
O ambiente quente, escuro, fora tomado por toda ação, vivacidade, som,cor,tela,imaginação,fantasia.Inacreditavelmente,de forma inédita,irônica,não havia roteiro.Um filme nunca visto antes.Sem dúvida,diferente de todas as novelas que a mocinha já havia visto.Para ela isso era fatal demais,leve demais,bom ao extremo,porque ela sabia que as novelas tinham romance em excesso,até irreal.A a ação do filme era o programa cabível para suas emoções.Ela estava vendo aquilo que desejava ver desde o começo,desde o uso da tecnologia e da pequena e arquitetada malicia.
O tempo passava naquele lugar como se não houvesse hora para acabar a distração. Ela começou e não pensou em parar de brincar com o relógio. O tempo passava e a sessão acabava, e ela sabia que haveria um final,um beco sem saída para o tempo.O letreiro apontava o “The End”,as mãos separavam,assim como os lábios.O rostos tímidos demonstravam um pouco mais de intimidade,mas frieza por não terem calculado tudo aquilo,quantos nervos a flor da pele se mexeram.
Assim como quem não quer nada, se despediram perguntando se amanhã iria chover, uma função fática desleal com tudo aquilo vivido.Realmente ela não o veria mais,não daquela mesma forma,já não eram tão desconhecidos assim.Foi com um beijo seco que ele partiu,virando as escadarias do cinema,num tempo fresco da madrugada.Ela o viu indo embora,mais do que isso não doeu ver sua notória partida. O som tórrido da noite silenciosa já bastava. Ela já havia desistido das novelas,aquilo era mais fácil.Na poltrona tudo se resolve,ali tudo é pagão,tem vontade,tem escolha,é esporte,é sorte,poesia,tem invasão,é carnaval.Era coisa de cinema.