Ela esperou uma semana para que o calor das coisas tivesse atingido a temperatura natural da passividade. Em leve retro, recordou que uma voz lhe dizia para que não passasse da hora,nem da conta, matasse a vontade.A outra voz gritava para que os bons costumes fossem zelados. Que não perdesse a compostura e a pose de boa moça.
Deu voz à aquela que menos tinha ouvido no decorrer dos anos.Para ela não era fácil deixar (a segunda voz),a menina dos olhos de suas convicções.Sua fiel companheira, que evitou o abismo do seu corpo. Mas já era a hora. Passava da hora! Era tempo de colocar novas roupas. Em quatro frações de segundos,optou pela voz que mandava ela se despojar no contorno de suas vontades.Assim,deu aval à tecnologia,mandou recado para que ele a esperasse,naquele encontro,na hora X,raramente o veria de novo.Era a oportunidade de deixar a sensação de coisas não realizadas,para trás.
A voz que pedia para que ela se reprimisse, gritava. Mas o desejo que pulsava era bem maior. Ele afogou todas as vozes.
Foi assim que ela o viu naquele cinema. No começo a luz não fazia com que eles se encontrassem, a timidez e a insensatez eram maiores, não existiam palavras cabíveis ára aquele momento.Ele fugia com o olhar,ela disfarçava,desconcertadamente .Movimentos valem muito mais do que palavras,quando o que move é único e exclusivamente a vontade.
Foi então, que as luzes foram apagadas. Do lado de fora existia um mundo que não ouvia nosso barulho,pessoas incapazes de me enxergar naquele instante,o que existia era a vontade de conhecer um lugar poucas vezes visitado.Ela só conseguia sentir o gosto inédito do beijo,arrepiando cada parte do seu corpo,de suas veias.Era algo demasiadamente descompromissado e espontâneo,biológico,contemporâneo e natural.
O ambiente quente, escuro, fora tomado por toda ação, vivacidade, som,cor,tela,imaginação,fantasia.Inacreditavelmente,de forma inédita,irônica,não havia roteiro.Um filme nunca visto antes.Sem dúvida,diferente de todas as novelas que a mocinha já havia visto.Para ela isso era fatal demais,leve demais,bom ao extremo,porque ela sabia que as novelas tinham romance em excesso,até irreal.A a ação do filme era o programa cabível para suas emoções.Ela estava vendo aquilo que desejava ver desde o começo,desde o uso da tecnologia e da pequena e arquitetada malicia.
O tempo passava naquele lugar como se não houvesse hora para acabar a distração. Ela começou e não pensou em parar de brincar com o relógio. O tempo passava e a sessão acabava, e ela sabia que haveria um final,um beco sem saída para o tempo.O letreiro apontava o “The End”,as mãos separavam,assim como os lábios.O rostos tímidos demonstravam um pouco mais de intimidade,mas frieza por não terem calculado tudo aquilo,quantos nervos a flor da pele se mexeram.
Assim como quem não quer nada, se despediram perguntando se amanhã iria chover, uma função fática desleal com tudo aquilo vivido.Realmente ela não o veria mais,não daquela mesma forma,já não eram tão desconhecidos assim.Foi com um beijo seco que ele partiu,virando as escadarias do cinema,num tempo fresco da madrugada.Ela o viu indo embora,mais do que isso não doeu ver sua notória partida. O som tórrido da noite silenciosa já bastava. Ela já havia desistido das novelas,aquilo era mais fácil.Na poltrona tudo se resolve,ali tudo é pagão,tem vontade,tem escolha,é esporte,é sorte,poesia,tem invasão,é carnaval.Era coisa de cinema.